quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Coração bobo


De uma hora pra outra, um coração partido se vê inteiro, mas nunca o inteiro de antes, um inteiro com mil retalhos, com cara de outro coração. Corações partidos rondam por aí, muitos incógnitos e outros nem tanto, mas nesse nosso planeta, de cabo a rabo, do Alasca ao Zaire, de cada dez pessoas, dez terão seus corações partidos em muitos momentos de uma existência inteira. E desses dez, dez terão seus corações inteiros de volta na mesma existência. Então, corações partidos nunca estão sós. Todos os dias, compartilhamos nossas dores partidas com milhares de desconhecidos. E todos os dias, milhares de outras pessoas compartilham sua inteireza, uns com generosidade e outros nem tanto.

O fato é que nessa vida não temos momentos só de inteireza ou não estamos o tempo todo partidos. E os momentos de inteireza ou partidos não são privilégio de ninguém, estamos todos sujeitos a um e outro pelo resto de nossa existência. E a notícia mais chocante é que nossos corações ficam partidos e inteiros muitas vezes em uma mesma vida e ficar partido vai doer, sempre. A boa notícia é que sempre voltamos a ser inteiros, mas não tem regra e nem tempo. Então, tenha paciência, sua inteireza está dentro de você. Mas um coração partido não pode ser ignorado, precisamos passar junto com ele todos os momentos partidos. Ou então, ele nunca deixa de estar partido...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Novo ano é todo dia


No novo ano não quero fazer tudo de novo. Nem fazer as mesmas coisas darem certo. O tempo do ano quando acaba é só uma marcação de tempo que alguém criou. Então o ano novo é todo dia, toda hora, todo instante, mas se só é ano novo quando marca o relógio, então quando ele começar eu quero é fazer tudo diferente dar certo. Eu nem quero ser diferente, eu só quero ser quem eu sou sem muito esforço, sem marcação de tempo. Eu quero mesmo é que meu ano novo demore a acabar e comece o tempo todo...
Só um lembrete:
Não há um caminho para a paz. A paz é o caminho.
Não há um caminho para a liberdade. A liberdade é o caminho.
Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O instante de ser especial



Pessoas especiais são especiais pra sempre no tempo de alguém. É num instante especial que alcançamos a eternidade, porque um momento especial pode se tornar infinito na nossa memória. Eu compartilho pessoas especiais na minha vida e infinitamente agradeço a presença de seus instantes que me tornam a cada instante um pouco mais especial. E que 2011 seja tão especial como cada um que passou pelo meu tempo foi comigo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Lembranças


A sombra do que me assombra se transformou em névoa do passado, guardada embaixo do mais fundo esquecimento. E na ausência de memória só há a mais remota lembrança. A lembrança de que um dia poderíamos ter sido, mas que nunca fomos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Em um outro tempo


Num instante do tempo, a Lua encontrou o Sol e contou em segredo:

- Dos amores que eu amei, você foi quem me deixou mais inteira, mas só depois de me fazer aos pedaços muitas e muitas vezes...

E o Sol, sem ter mais o que dizer, raiou o dia. E amanheceu.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O mundo


O mundo não é como a gente pensa. O mundo surpreende. O mundo pesa. O mundo traz clareza. O mundo é profundo. O mundo não é real dentro do nosso imaginário. O mundo é muito real dentro e fora de nós. O mundo me pega de jeito ás vezes. O mundo me faz sorrir. E me faz chorar. O mundo me abençoa, me carrega no colo, me faz sonhar. O mundo, tem dias, que é um pesadelo. O mundo fora de mim é estranho. O mundo dentro de mim é obscuro. O mundo das pessoas é um. O mundo meu é outro. O mundo é melhor quando é nosso, mas nosso mesmo nenhum mundo é totalmente. Meu mundo não é nenhum Outro. Um dia, o Outro foi meu mundo e o mundo caiu. O mundo me faz levantar várias vezes, mas já me jogou no chão muitas outras. O mundo, como dizia Cartola, não é só um moinho. O mundo me dá medo de ter coragem, mas me encoraja a seguir em frente. O mundo é pequeno diante de todo o universo de mundos. O mundo acontece todo dia na minha janela. Meus pensamentos voam o mundo à velocidade da luz e não chegam a lugar nenhum. Meu mundo amanhece a cada dia com a sensação de que alguma coisa vai acontecer no mundo. E acontece: a vida.

Para a J.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural



Esse texto abaixo foi o meu primeiro texto neste blog. Hoje, passeando por ele, me toquei de que continuo concordando que a minha geração continua andando nesse mundo como se estivesse à deriva. E eu cheguei à conclusão de que eu achei meu bote salvavidas, porque, olha que clichê: ele sempre esteve dentro de mim... mas como disse Brecht: "não aceiteis o que é de hábito como coisa natural"
Então, a minha geração é assim:

A minha geração se diverte com filmes ousados e inteligentes, pensando que algum dia, quem sabe, eles mudem a forma dos outros pensar. A minha geração gosta de música que tenha algum sentido e resista ao que todo mundo já sabe. A minha geração sai pra comer semanalmente fast food reclamando que os fast food são símbolo de um modo de vida que ela, a minha geração, já adotou faz tempo e nem se dá conta.

A minha geração está insatisfeita, mas nunca parou pra pensar em ousar fazer diferente. Ou porque está perdida no meio de um mundo que se impõe diante de nossos olhos.

A minha geração não precisou lutar para conseguir o que quer, porque sequer sabe o que realmente quer. A minha geração se acostumou a ver a luta dos outros, a apoiar a luta dos outros, a achar que tudo é uma questão de acomodação, a refletir sobre a mobilização e a falta dela, a achar que falta alguma coisa nesse quebra cabeça de mundo. Mas a minha geração não faz esforços para descobrir que raio de peças são essas, que faltam, que não se encaixam, que podem mudar a figura do jogo...

Aí, eu pensei nessa poesia do Bertold Brecht e que me deu esperanças...

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.