segunda-feira, 22 de março de 2010

Se não guenta, por que veio?


A quarenta minutos da prova, 20 pessoas na sala sentados em silêncio e o baixinho atarracado da cadeira da frente resolve virar pra trás e fazer um comentário:

- É um absurdo, né. A gente não pode sair daqui.

A moça da cadeira de trás pergunta:

- Mas você quer sair? Porque agora não dá mesmo, só depois de uma hora de prova.

- Tá, mas e se eu passar mal, insinuou o baixinho.

- Mas você tá passando mal? Porque aí eles te levam pro posto médico, mas você só sai daqui a uma hora, explicou a moça.

- É um absurdo! Isso aqui parece uma ditadura! - bradou o baixinho, que além de atarracado começou a ficar antipático.

- Você tá passando mal? - perguntou de novo a moça, incrivelmente gentil.

- Nâo... mas eu quero intacto o meu direito de ir e vir. A gente vive numa era de democracia, é o meu direito de ir e vir !- discursou, com ares democráticos, e começou a parecer, além de atarracado, antipático, com aquela cara de tucano...

A mulher da cadeira da fila ao lado não resistiu e se intrometeu na conversa:

- Vem cá, mas se você não tá passando mal e não quer ficar aqui, então veio fazer o quê, colega?

O baixinho atarracado se sentiu ofendido:

- E você é fiscal por acaso? Eu quero o meu direito de ir e vir, só isso. Isso aqui tá parecendo Cuba! Daqui a pouco vai ter gente fazendo greve de fome!

A moça da cadeira de trás respirou fundo, contou até três e ignorou o baixinho atarracado. A mulher da cadeira da fila ao lado achou que o cara era doido e que aliás ele tava bem gordinho e que parar de comer até ia dar um trato no físico... e que aqui, vamos combinar, tá longe de ser Cuba em qualquer sentido...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Paz Interior


Repetiu "Om" 25 vezes, sentada no chão, de pernas cruzadas estilo Buda. Repetia e respirava, repetia e respirava. Contou 25 vezes. A paz interior não chegava, não chegava. Bem que alguém tinha lhe dito que não é assim, de bate-pronto. Tentou de novo. Mais 25 vezes repetiu e respirou, repetiu e respirou. Nesse meio tempo pensou na agenda lotada do dia, em todas as obrigações pendentes, no extrato bancário temeroso, no dia que tava tão bonito. A mente vagueou, vagueou, até que resolveu ir ao salão. Foi. Solicitou fazer pé, mão, hidratação profunda e corte. Saiu de lá de mãos dadas com a paz exterior...

terça-feira, 9 de março de 2010

O Fetiche do Macacão


Tinha um macacão verde lindo na vitrine. Lindo e caro. Me imaginei com ele, poderosa. Dormi pensando nele, uma angústia de não ser mais eu sem o macacão. Esse macacão deu um sentido à minha vida. Por isso, hoje não me sinto eu mesma.

Eu não sei de onde nasceu essa necessidade do macacão. Nunca a tive. A pergunta certa é: por que mesmo eu preciso desse macacão? De onde surge essa necessidade, essa angútia de ter o que não se precisa e de ser o que não se é? De onde vem essa certeza de que uma coisa pode preencher aquele vazio dentro de você, sendo que não vai, jamais?

E de onde veio esse macacão do diabo pelamordedeus? Coitado, ele é só o resultado do tempo em que vivemos. Ganhou vida própria num estalar de dedos logo depois de ter sido colocada a etiqueta de preço e provavelmente surgiu das mãos de costureiras mal pagas.
Olhando assim, eu não preciso do macacão. Começo a me sentir eu mesma...acho que posso conviver com isso...

domingo, 7 de março de 2010

Contículo



O massagista pegou a mulherzinha pra cristo naquele dia. Tratou-a como massa de pão: sovou, bateu e amassou. E na dor, ou se ri ou se chora. Mas ela se controlou ou então as gargalhadas iriam preencher todo o espaço vazio. Aguentou heroicamente os 40 minutos, num misto de penitência, martírio e falta do que fazer. Ficou pensando na possibilidade de pensar em outra coisa que não aquelas dores e, assim, terminou o tempo. Na porta, ao sair, a placa dizia: "relax massage".

domingo, 27 de dezembro de 2009

Adeus 2009!

O ano de 2009 foi meio esquisito. Não gosto de dizer que foi ruim para não trazer má sorte, mas foi meio esquisito. E eu sobrevivi com dignidade. Não vou dizer que não ficaram sequelas, mas estas cicatrizam depois... Adeus 2009! Não sentirei saudades, mas obrigada mesmo assim!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Minissaia, taleban, Brasil


Parece que não adiantou nada chegarmos até aqui. A civilização às vezes anda pra trás (tenho medo de que Jack London tenha razão ao ter escrito "A Praga Escarlate", quando a humanidade, depois de um pico cultural e tecnológico involui pra terra de selvagens). É o caso da minissaia. No Afeganistão, sob o regime Taleban, não pode usar. As muçulmanas e hindus – por motivos religiosos, também não podem. No Brasil, na Uniban, também não pode. E, em caso de uso, é legítimo xingamento, piadinha, humilhação e expulsão da faculdade.

Passamos pela contracultura, pela defesa dos direitos da mulher, pelos direitos civis, pela ditadura e não aprendemos nada.

Botar as pernas de fora já foi símbolo de emancipação, do mesmo modo como quando Chanel colocou calças compridas em mulheres. Usar ou não a minissaia fez parte do empoderamento da mulher. No Brasil, não é mais: virou imoralidade. Ou segundo a Uniban, "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.

Chegamos a uma civilização medíocre... por favor, me levem pra Vênus.